Terça-feira, Setembro 07, 2004

Pobre Diabo (Parte 5 de 8)

FEITOS OS PLANOS, delineadas as estratégias e traçadas as meretrizes, era hora de meter a mão na massa. Diabo encarregou-se do contato direto com os oponentes, enquanto Adama procurou velhos conhecidos influentes na mídia. Ao Salomão coube orçar e planejar o espaço. Aquiles responsabilizou-se pelo equipamento e pessoal necessários.
O contato do Diabo deu-se de maneira interessante. Procurou o todo-poderoso em seu escritório, ligou para a casa dele, para o celular e até para telefones de amigos. Deixou recado até no inferno. Meia hora depois aparece o moço, trajando o corpo de um senhor elegante e bem vestido. O diabo gostou daquilo.
-Tanto cuidado nas vestes e na aparência para ter comigo? Que mudança é essa?
-Ouvi boatos de que tu estarias disposto a conversar sobre paz. Tu sabes que eu sempre procuro a paz – Dizia isso com a voz serena que usavam para ele nos filmes – desde que seja feita do meu jeito, com as minhas condições. Tu sabes, não posso abrir mão de ser o mandatário maior, não aceito dividir um centímetro sequer do meu prestígio. Em outras palavras, quem manda sou eu e isso é imutável.
-Mas se é assim, você não deveria sequer vir conversar comigo. Afinal de contas, você faz e desfaz à sua maneira...
-Não te faças de tolo – esbravejou, quase gritando - sabes que a boataria desestabiliza qualquer governo. Já pensaste o que diriam por aí, sabendo que tu quisestes falar sobre paz e eu não compareci? Todas a minha retórica acerca da misericórdia infinita, aonde é que ia parar? És esperto, mas preste atenção: EU MANDO. EU SOU O CARA. Sou aclamado por multidões diariamente. Mantenho governos, derrubo outros, mudo regimes; as instituições que me representam matam, roubam, torturam e nada acontece, não se abalam há séculos...
Diabo ouvia aquilo se contendo para não esbofetear o outro. Aquela prepotência era de irritar qualquer um. Mas a paciência é uma virtude divina, e era melhor acostumar com aquilo para não detonar o plano logo no início. Interrompeu a fala do outro dizendo:
-Tudo bem, você é o manda-chuva. Não discuto isso. Só quero buscar meu espaço, mostrar ao mundo que não sou aquilo que dizem por aí.
-Veja bem, Diabo: Nós já jogamos no mesmo time. Tu já estiveste comigo por algum tempo e traiu-me. Sabes que eu fui um idealista por muito tempo! Mas é impossível conter a rebeldia humana. Veja o caso da Eva, por exemplo: Estava numa boa, mas tinha que comer a da maçã?
-Mas por que privar a criatura da maçã? Que mal há em se comer maçã?
-O mal da desobediência. Afinal eu me dei ao trabalho de criar tudo, de fazer o paraíso só para eles. Eu dei do bom e do melhor, e só exigi que eles não ultrapassassem os limites que eu estabeleci. Será que é pedir demais que os filhos obedeçam ao pai?
-Deixa de ser paternalista, porra! Deixa os caras escolherem o que querem. Você fala como um velho coroné do sertão. Até parece que vota no PFL!
-Hei, calma. Não vamos partir pra ignorância. Estamos em missão de paz.
Diabo percebeu a estratégia do outro: provocá-lo até que ele partisse pra ignorância. Aí sairia por aí dizendo as mesmas coisas de sempre e tudo voltaria a ser como era. Resolveu ir direto ao assunto.
-O que eu tenho a te propor é muito simples, disse o Diabo. E explicou a idéia, dizendo que com isso as atenções estariam voltadas para eles o tempo todo. Lembrou ao outro dos velhos tempos em que trabalharam juntos e seguiam os mesmos ideais.
-Cai na real, Diabo: Ideais são ridículas idéias de mortais. Além do mais, não ganho nada se entrar nessa.
-Mas perde muito se não entrar. O Adama, meu chegado, já fez os contatos, está tudo agendado e o desafio será lançado em rede mundial. Você venceu no deserto, eu tenho direito a uma revanche. Agora é a minha vez de jogar em casa. Já pensou o que dirá o público vendo você recuar diante de um desafio?
-És mesmo um diabo! Botou-me numa sinuca de bico. Mande seus assessores para que debatam, com os meus, as regras. Mas fique uma coisa bem clara: se passares dos limites e tentares me derrubar, te jogo nos quintos dos infernos para toda a eternidade. Pensando melhor, a proposta é outra: Se perderes, serás uma santa criatura por toda a eternidade. Nada de festas, orgias, só trabalho e reza. Por toda a eternidade.
Diabo vacilou por um momento, se perdesse seria seu fim. Não estava preparado para aquela proposta. Mas não poderia fracassar naquele momento. Aceitou e tratou de afastar da cabeça a idéia da derrota. Afinal de contas, o tudo ou nada era um excesso, e essa era uma de suas bandeiras.