Domingo, Fevereiro 13, 2005

A RESPEITO DA LINGUAGEM

O dia inicia com o bom dia. E é na linguagem que o primeiro momento de interação social se confirma. Durante todo o dia, todos os dias, os diferentes sentidos que interpretamos chagam a nós por ela, transformando-nos a cada momento e reinventando-se em nossas ações e criações.
Nas cerimônias religiosas, a linguagem está presente carregada de ideologias, com seus significados particulares e ao mesmo tempo universais. Portas se abrem, rumo à transcendência, através da linguagem ritualística que caracteriza as religiões.
A arte possui linguagem própria. Prima pelo subjetivo, mesmo que às vezes, como, por exemplo, no movimento literário denominado Parnasianismo, busque-se a objetividade. Em algumas manifestações como a música e as artes plásticas a carga de subjetivismo é ainda maior, já que a linguagem não é verbal. No entanto, podemos pensar na seguinte relação: se a linguagem verbal nos dá efeitos de sentido, e não sentidos únicos, e estes são passíveis de interpretação, a aproximação por efeitos pode se dar por estas manifestações ditas subjetivas, tanto quanto pela linguagem verbal.
O que dizer então da literatura, especialmente da poesia? A linguagem poética muitas vezes consegue um nível fantástico de alcance da realidade.
Passagem das horas
Trago dentro do meu coraçãoComo num cofre que se não pode fechar de cheioTodos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigiasOu de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.Álvaro de Campos In Fernando Pessoa, Obra Poética.

Na minha subjetividade de escritor, neste momento, as palavras do poeta, mesmo relidas muitas vezes, demonstram sentimentos inexplicavelmente convergentes. Sempre, porém, diferentes. Será que a sua, de leitor deste trabalho, tem concordância com a minha? Ou, talvez, com a do poeta? Possivelmente em alguns pontos, em algumas lembranças, pensamentos e sentimentos, sim. No entanto, nem eu, nem você, nem Fernando Pessoa ou Álvaro de Campos, que é um ser irreal com o qual dialogamos e que portanto é real no imaginário e imaginário no real, podemos dialogar a não ser com nossas próprias subjetividades, sendo cada um de nós um universo paralelo.
Mas a ciência positivista tem a pretensão, com sua linguagem, de nos afastar do universo paralelo e fazer com que a linguagem seja exata. Com isso, pretende que a dúvida seja suprimida. Como suprimir a dúvida, organizar o universo? A tarefa parece Hercúlea, mas tem encontrado diariamente seguidores fanáticos que rezam pela organização e pela manutenção do poder tal como é. Felizmente, muitos olhos estão se abrindo e aí nos construímos coletivamente, lembrando do refrão de Chico Science: Me desorganizando, posso me organizar. Eu me organizando, posso desorganizar.
As palavras do músico, mais políticas que poéticas, lembram outra dimensão importante da existência humana, onde se dão as lutas de classe. Neste terreno caminha-se pela linguagem como quem pisa em ovos. Caso interessante é o do ex-presidente Brasileiro Fernando Henrique Cardoso, que ao adotar medidas diferentes do que pregavam seus escritos, pediu simplesmente que fosse esquecido tudo o que ele havia dito. Ou do também ex-presidente, o general João Figueiredo, que em dias de abertura democrática declarou que “Quem for contra a democracia, eu prendo e arrebento!”. Bakhtin considera que a palavra é o fenômeno ideológico por excelência. Se concordarmos com ele, podemos tentar compreender não o que dizem esses ex-presidentes, mas o universo de sentidos que pode estar por trás de suas falas.
Na educação, a linguagem constrói e destrói, ás vezes no mesmo momento. O dito e o não-dito, muitas vezes o já-dito, se refazem a cada dia nas escolas e universidades. Aí percebemos que quem entra em sala de aula não são alunos e professores, mas pais, amigos, igrejas, polícias, governos, nações. Cada qual espelhado nas falas, nos sentidos atribuídos e suprimidos, nos relacionamentos e nas tensões, nas relações de poder e alienação.
Compreender a linguagem e suas implicações tem a distância do infinito, é como se a cada passo dado na compreensão déssemos mil na incompreensão. No entanto, o sentido de compreender passa por esse indissolúvel dilema Shakespeareano / pós-moderno, ser ou não ser. Ou ser o não-ser.
Assim sendo, resta lembrar que a noite termina com boa noite. No entanto, a linguagem nos acompanha em nossos sonhos, enquanto no reinterpretamos e interpretamos, nos desconstruímos para estar em permanente reconstrução.